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domingo, 6 de maio de 2012

Lefebvrianos, à espera do “sim” do Papa.


Em maio, a conclusão do processo que deve devolver à Fraternidade São Pio X a plena comunhão com Roma. 


A resposta que o bispo Bernard Fellay enviou ao Vaticano em 17 de abril será examinada nos próximos dias pelos cardeais e bispos na “Feria Quarta” da Congregação para a Doutrina da Fé e, posteriormente, sua decisão será submetida a Bento XVI. Durante o mês de maio está prevista a conclusão do processo que deveria devolver à Fraternidade São Pio X, fundada por Monsenhor Lefebvre, a plena comunhão com Roma, 24 anos depois das sagrações ilegítimas que provocaram a ruptura e a excomunhão do arcebispo tradicionalista e dos quatro sacerdotes que foram sagrados bispos sem a permissão do Papa. Quando for divulgada a decisão final, também será apresentado o texto do “preâmbulo doutrinal” que a Santa Sé apresentou a Fellay e à Fraternidade, e que o superior do grupo tradicionalista devolveu a Roma propondo algunas mudanças não substanciais.
Nestes últimos dias, multiplicaram-se as declarações de alguns importantes expoentes da Fraternidade São Pio X, particularmente do ramo lefebvriano mais partidário da volta à plena comunhão com Roma. O Padre Niklaus Pfluger, primeiro assistente de Fellay, em uma conferência pública em Hattersheim, Alemanha, disse que o Superior da Fraternidade, nas atuais circunstâncias, não “considera possível rejeitar a proposta do Papa”, especificando que afastar-se do desejo do Pontífice significaria “cair no sedevacantismo”. Pfluger esclareceu que restam pontos de desacordo e que a Fraternidade reivindica a liberdade de criticar alguns pontos dos documentos conciliares. Igualmente, recordou que Lefebvre já em 1988 havia assinado um acordo doutrinal com a Santa Sé que continha “muito mais concessões da parte da Fraternidade do que as que Bento XVI pede agora”.
Também cabe destacar o editorial do Padre Franz Schimidberger, superior da Fraternidade São Pio X, que escreveu na edição de maio da revista mensal do distrito alemão: “Se Roma nos chama agora do exílio que nos impôs no ano de 1975, com a revogação da aprovação” canônica da Fraternidade, “e posteriormente, em 1988, com o decreto de excomunhão contra os bispos sagrantes e sagrados”, então “se trata de um ato de justiça e, sem dúvida, também um ato de autêntica atenção pastoral do Papa Bento XVI” . Ainda mais significativo é o artigo de outro membro histórico da Fraternidade, Padre Michel Simoulin, publicado no número de maio do boletim «Seignadou», do priorado de Saint-Joseph-des-Carmes: também ele volta a falar do acordo assinado por Lefebvre e Ratzinger em 1988, explicando que naquele momento a ruptura não ocorreu pelo preámbulo doutrinal, mas por um motivo prático. Lefebvre, de fato, não confiou nas garantias do Vaticano sobre a possibilidade de poder consagrar um bispo como seu sucessor: “Pelo que o processo foi paralizado não por uma questão doutrinal, nem pelo estatuto oferecido à Fraternidade – escreveu o pe. Simoulin – mas pela data da sagração do bispo”.
Padre Simoulin, respondendo às objeções internas daqueles lefebvrianos que não desejam o acordo com Roma, recorda que Ratzinger, “uma vez Papa, nos disse que a Missa Tridentina não foi nunca abrogada (7 de julho de 2007: “Pelo que se permite celebrar o sacrifício da missa segundo a edição típica do Missal Romano promulgado pelo beato João XXIII, em 1962, e nunca abrogada”); reabilitou os nossos quatro bispos (21 de janeiro de 2009); aceitou que realizássemos discussões doutrinais durante dois anos, coisas que Monsenhor Lefebvre não pediu em 1988. Não exageramos ao dizer que Monsenhor Fellay obteve mais do que pediu Monsenhor Lefebvre, sem possuir nem o seu prestígio nem a sua autoridade moral. Então, devemos ser ainda mais exigentes que Monsenhor Lefebvre e que Monsenhor Fellay?”. Simoulin conclui reiterando que a situação atual é distinta à de 1975 e de 1988, e quem afirma o contrário o faz porque rechaça “qualquer tipo de reconciliação com Roma”, mostrando “talvez também uma falta de fé na santidade da Igreja”. “A Fraternidade São Pio X não é a Igreja e não pode respeitar o legado de seu fundador senão conservando o seu espírito, o seu amor pela Igreja e o seu desejo de servi-la como um filho que a ama”.
Voltar a ler a parte doutrinal do “protocolo de acordo” assinado por Lefebvre em 5 de maio de 1988 pode ser útil para compreender parte do conteúdo do “preâmbulo doutrinal” do qual se tem falado nos últimos meses, cujo texto ainda não foi divulgado, pela possibilidade, prevista desde o início, de mudanças e formulações com expressões distintas. O fundador da Fraternidade prometia fidelidade ao Papa, declarava “aceitar a doutrina contida no número 25 da Constituição Dogmática Lumen Gentium do Concílio Vaticano II sobre o magistério eclesiástico e  sua devida adesão”. No que se refere à divergência sobre algumas passagens conciliares, afirmava: “Acerca de alguns pontos do Concílio Vaticano II, ou relacionados às reformas posteriores da liturgia e do direito, e que nos parecem dificilmente conciliáveis com a tradição, comprometemo-nos a adotar uma atitude positiva e de comunicação com a Sé Apostólica, evitando qualquer tipo de polêmica”. Igualmente, Lefebvre declarava “reconhecer a validez do sacrifício da Missa e dos sacramentos celebrados com a intenção de fazer o que a Igreja faz e segundo os ritos indicados nas edições típicas do missal romano e dos rituais dos sacramentos promulgados pelos Papas Paulo VI e João Paulo II”. E, por último, prometia “respeitar a disciplina comum da Igreja e as leis eclesiásticas”.
Como podemos ver, também em 1988, no documento acordado com o então Cardeal Joseph Ratzinger, era evidente a existência de “certos pontos” considerados pelos lefebvrianos como “dificilmente conciliáveis” com a tradição. Mas este desacordo não deveria ter impedido a plena comunhão. Há 24 anos os acontecimentos tomaram outra direção: houve um ato cismático e as excomunhões. Atualmente, após quase um quarto de século, esta ferida pode ser curada.

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