Por São Franciso de Sales
Fonte: Mulher Católica
As
danças e os bailes são coisas de si inofensivas; mas os costumes de
nossos dias tão afeitos estão ao mal, por diversas circunstâncias, que a
alma corre grandes perigos nestes divertimentos. Dança-se à noite e nas
trevas, que as melhores iluminações não conseguem dissipar de todo, e
quão fácil é que debaixo do manto da escuridão se façam tantas coisas
perigosas num divertimento como este, que é tão propício ao mal. Fica-se
aí até alta hora da noite, perdendo-se a manhã seguinte e
conseguintemente o serviço de Deus.
Numa
palavra, é uma loucura fazer da noite dia e do dia noite, e trocar os
exercícios de piedade por vão prazeres. Todo baile está cheio de vaidade
e emulação e a vaidade é uma disposição muito favorável às paixões
desregradas e aos amores perigosos e desonestos, que são as
conseqüências ordinárias dessas reuniões.
Referindo-me
aos bailes, Filotéia, digo-te o mesmo que os médicos dizem dos
cogumelos, afirmando que os melhores não prestam para nada. Se tens que
comer cogumelos, vejas que estejam bem preparados e não comas muito,
porque, por melhor preparados que estejam, tornam-se, todavia, um
verdadeiro veneno, se são ingeridos em grande quantidade.
Se
em alguma ocasião, não podendo te escusar, fores coagida a ir ao baile,
presta ao menos atenção que a dança seja honesta e regrada em todas as
circunstâncias pela boa intenção, pela modéstia, pela dignidade e
decência, e dança o menos possível, para que teu coração não se apegue a
essas coisas.
Os
cogumelos, segundo Plínio, como são porosos e esponjosos, se impregnam
facilmente de tudo quanto lhes está ao redor, até mesmo do veneno de uma
serpente que por perto deles se arraste. Do mesmo modo, essas reuniões à
noite arrastam para o seu meio ordinariamente todos os vícios e pecados
que vão alastrando pela cidade ― os ciúmes, as pedanterias, as brigas,
os amores loucos; e, como o aparato, a afluência e a liberdade, que
reinam nestas festas, agitam a imaginação, excitam os sentidos e abrem o
coração a toda sorte de prazeres, caso a serpente murmure aos ouvidos
uma palavra indecente ou aduladora, caso se seja surpreendido por algum
olhar dum basilisco, os corações estarão inteiramente abertos e
predispostos a receber o veneno.
Ó
Filotéia, esses divertimentos ridículos são de ordinário perigosos.
Dissipam o espírito de devoção, enfraquecem as forças da vontade,
esfriam os ardores da caridade e suscitam na alma milhares de más
disposições. Por estas razões nunca se deve freqüentá-los, e, no caso de
necessidade, só com grandes precauções.
Diz-se
que, depois de comer cogumelos, é preciso beber um gole do melhor vinho
existente; e eu digo que, depois de assistir a estas reuniões, convém
muito refletir sobre certas verdades santas e compenetrantes para
precaver e dissipar as tentadoras impressões que o vão prazer possa ter
deixado no espírito.
Eis aqui algumas que muito te aconselho:
1. Naquelas
mesmas horas que passaste no baile, muitas almas se queimavam no
inferno por pecados cometidos na dança ou por suas más conseqüências.
2. Muitos
religiosos e pessoas piedosas nessa mesma hora estavam diante de Deus,
cantando os seus louvores e contemplando a sua bondade; na verdade, o
seu tempo foi muito mais empregado que o teu!...
3. Enquanto
dançavas, muitas pessoas se debatiam em cruel agonia, milhares de
homens e mulheres sofriam dores atrocíssimas em suas casas ou nos
hospitais. Ah! eles não tiveram um instante de repouso e tu não tiveste a
menor compaixão deles; não pensas tu agora que um dia hás de gemer como
eles, enquanto outros dançarão?!...
4. Nosso
Senhor, a SS. Virgem, os santos e os anjos te estavam vendo no baile.
Ah! quanto os desgostaste nessas horas, estando o teu coração todo
ocupado com um divertimento tão fútil e tão ridículo!
5. Ah!
enquanto lá estavas, o tempo se foi passando e a morte se foi
aproximando de ti; considera que ela te chame para a terrível passagem
do tempo para a eternidade e para uma eternidade de gozos ou de
sofrimentos.
Eis aí as considerações que te queria sugerir; Deus te inspirará outras mais fortes e salutares, se tiveres santo temor a Ele.
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São Franciso de Sales. Filotéia ou Introdução à Vida Devota. Petrópolis: Editora Vozes, 2004, p. 319-323.
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